História e Cultura Sobre seus Pés




A+  A-  |  voltar

OS PÉS DE LÓTUS


 

- Os Pés de Lótus -

O Antigo Costume Chinês do Enfaixamento dos Pés

 

O enfaixamento dos pés foi um costume chinês praticado nas crianças e adolescentes durante quase mil anos, desde o início do século X até a primeira metade do século XX.

 

     

 

A prática de enfaixar os pés durante o período de crescimento das meninas jovens ocasionava fraturas nos ossos e desvios articulares. Progressivamente os pés ficavam deformados e com seu tamanho reduzido, além de ser extremamente doloroso e incapacitante para as meninas e adolescentes submetidas a essa prática.

 

        

 

Várias teorias tentam explicar a origem do enfaixamento dos pés. Os pés pequenos eram louvados pelos poetas desde época de Confúcio, 2.500 anos atrás. A deformação para redesenhar o pé das mulheres se tornou o mais belo e o mais excitante espetáculo de sensualidade da época. O pé da mulher adulta estava condicionado a ser um eterno pé infantil e esse desejo de imitar os minúsculos pés de uma concubina tinha o motivo do erotismo pela cultura chinesa.

Além disso, caminhar sobre os pés deformados necessitava dobrar os joelhos e balançar o corpo para realizar o movimento adequado. Este balanço para caminhar ficou conhecido como a “Marcha de Lótus” e foi considerado, pelos homens da época, sexualmente excitante.

Outra suposição seria um fato histórico de 970 dC, no reinado de Li Yu. Durante uma apresentação de dança, em cima de um pedestal em forma de lótus dourado, a dançarina colocou seus pés em longas tiras de pano de seda, como as faixas de uma bailarina atual. Li Yu ficou tão emocionado com a beleza de seus movimentos que outras mulheres seguiram o exemplo dos “Pés de Lótus”. O que começou como uma ferramenta para facilitar a dança foi gradualmente adotada como moda entre a classe alta. As mulheres começaram a enfaixar seus pés, concentrando-se cada vez mais atentamente sobre a forma desejada e o tamanho do pé. Como era inevitável, a popularidade das classes superiores propagou-se à todos os níveis da sociedade, o que era apenas um modismo, tornou-se um modo de vida para milhões de mulheres em toda a China.

O que se sabe ao certo é que a deformação dos pés foi praticada entre a elite e nas regiões mais ricas da China. A prática representava a liberdade das mulheres do trabalho manual e, ao mesmo tempo, a capacidade de seus maridos de manter as esposas, que não precisavam trabalhar e que existiam unicamente para servir aos seus homens e ordenar os empregados domésticos.

Essa prática era muito popular e sinônimo de status social. O marido e os demais familiares tinham grande orgulho dos pés minúsculos que haviam alcançado a desejada forma de pétala de lótus. Esse orgulho se refletia nas pantufas de seda, bordadas minuciosamente, que as mulheres usavam para cobrir os pés.

 

      

 

Por volta do século 17, a maioria das meninas chinesas, inclusive das classes mais pobres, tiveram seus pés enfaixados. Era menos freqüente entre as mulheres que trabalhavam para viver, especialmente nos campos.

No século 19 cerca de 40 a 50 % das mulheres chinesas haviam enfaixado seus pés. De modo geral, a prática do enfaixamento era mais difundida pelo grupo étnico Han, do norte da china e que representava 90 % da população. Os grupos Hakka e Manchu, do sul da china, não praticavam o enfaixamento. Muitos outros grupos étnicos somente conheciam o costume e algumas mulheres praticavam de forma menos deformante e traumática, somente para reduzir o tamanho do pé, sem a necessidade de fraturar os ossos do arco e dos dedos.

Mais tarde, as mulheres da etnia Manchu, que estavam proibidas de enfaixar seus pés e que supostamente invejavam a Marcha de Lótus, inventaram seu próprio tipo de sapato que imitava o caminhar balançado. Elas usavam sapatos tipo “vaso de flor”, uma plataforma elevada, geralmente feita de madeira ou com um pequeno pedestal central.

A deformidade dos pés se tornou uma importante diferenciação entre mulheres Manchu e Han.

 

       

 

O Erotismo:

Os pés deformados pelo enfaixamento eram considerados intensamente eróticos na cultura chinesa. Um velho ditado chinês dizia: “Existem mil baldes de lágrimas para a mulher que enfaixa seus pés e cinco mil para a mulher que não o faz”. O fato de ter pés normais era considerado ridículo e motivo de zombaria e depreciação. Era praticamente impossível arranjar um marido do mesmo status social e, nas classes mais pobres, as mulheres não poderiam esperar mais do que serem serviçais ou escravas.

 

 

Para os homens, o efeito erótico primário era em função da marcha de lótus, em pequenos passos e balançando o corpo. As mulheres com pés deformados evitavam colocar o peso na parte dianteira do pé e caminhavam apoiando predominantemente os seus calcanhares. Como resultado, as mulheres caminhavam de forma prudente e cuidadosa.

Alguns homens preferiam não ver os pés de suas esposas, de modo que elas os mantinham sempre escondidos dentro de pequenos “sapatos de lótus” ou embrulhados. O próprio fato dos pés deformados permanecerem escondidos dos olhos dos homens era sexualmente atraente para eles. Por outro lado, um pé descoberto teria um odor fétido, ocasionado pela dificuldade de manter a higiene entre as várias dobras de pele.

Havia a idéia que se o marido removesse os sapatos e as faixas, o sentimento estético seria destruído para sempre; um entendimento de que a fantasia erótica simbólica dos pés enfaixados não correspondia à sua realidade física desagradável e eram, portanto, mantidos escondidos.

Outro atributo dado era a limitação da mobilidade da mulher, sua incapacidade de participar da vida política e social. Elas ficavam dependentes de suas famílias e, em particular, de seus maridos, tornando-se um símbolo de fascínio pela castidade e pela apropriação pelo sexo masculino, uma vez que a mulher ficava muito restrita ao lar e não podia aventurar-se muito longe sem o acompanhamento de alguém da família.

 

              

 

O Método:

Deformar os pés envolvia em dobrar progressivamente os dedos e o arco do pé, que finalmente formava uma cunha com uma fenda de aproximadamente 5 cm de profundidade. O objetivo era alcançar um pé com cerca de 7 a 9 cm de comprimento. Esse processo demorava cerca de dois anos para conseguir o efeito desejado.

 

 

O método de enfaixamento era iniciado antes do desenvolvimento completo do pé, geralmente entre quatro e sete anos. Nessa idade os pés são bastante flexíveis e os ossos ainda possuem uma grande parte de cartilagem.

O enfaixamento começava durante os meses de inverno, para que o frio entorpecesse os pés e diminuísse a dor causada.

Primeiramente, cada pé era embebido em uma mistura quente de ervas e sangue de animais para relaxar a musculatura e suavizar a pele. As unhas dos pés eram cortadas o mais rente possível, para evitar lesões e infecções.

Os pés da moça eram delicadamente massageados e ataduras de algodão de 3 metros de comprimento e 5 centímetros de largura eram banhadas na mistura de sangue e ervas.

Para modelar a parte da frente do pé, os dedos eram pressionados com grande força para baixo e apertados contra a sola, essa manobra muitas vezes ocasionava fraturas e luxações articulares dos dedos.

Todo o procedimento era realizado sem o alívio da dor e os dedos eram mantidos firmemente presos com o enfaixamento ao redor da porção frontal do pé.

 

 

Para reduzir o tamanho dos pés, com a perna estendida, o calcanhar era tracionado para frente do pé, quebrando e aumentando o arco plantar. Essa posição era mantida com as faixas passadas em forma de oito, a partir da parte interna do pé, passando pelo dorso, ao longo dos dedos, sob o pé e em volta do calcanhar, repetidamente.

Assim, os dedos quebrados recentemente eram pressionados firmemente contra a planta do pé juntamente com a tração do calcanhar para frente, fazendo com que o pé se dobrasse em seu arco. Todo esse procedimento ocasionava forte dor nas jovens chinesas.

Após a conclusão do enfaixamento, o pano era costurado firmemente para impedir a menina de afrouxá-lo. Quando esta bandagem úmida secava, havia maior firmeza e constrição, apertando ainda mais a pé e os dedos.

Nas famílias mais ricas esse procedimento era realizado quase que diariamente e, nos camponeses, duas ou três vezes por semana.

A cada troca das faixas os pés eram lavados, os dedos cuidadosamente examinados para verificar se haviam lesões e as unhas cuidadosamente aparadas. Os pés eram novamente manipulados e massageados. Imediatamente era realizada nova compressão e o enfaixamento era feito cada vez com mais força.

 

 

Geralmente quem realizava o procedimento era a avó ou algum profissional da técnica da região. Não era preferível que a mãe fizesse o enfaixamento, pois ela poderia ser favorável emocionalmente com a dor da filha e não forçar suficientemente a forma do pé e nem apertar devidamente as faixas.

Um bom profissional da técnica ignorava os gritos de dor e apertava as ataduras ao máximo possível. Tinham experiência em fraturar cada um dos dedos em vários lugares e deslocá-los para baixo. Faziam as meninas sofrerem de dor extrema, mas o resultado final era melhor, atingindo aproximadamente os 7 centímetros ideais.

 

       

 

A menina não tinha permissão para descansar após o enfaixamento. Com muita dor, eram obrigadas a caminhar sobre os pés quebrados, para que seu próprio peso corporal ajudasse a pressionar e modelar seus pés na forma desejada.

O problema mais comum era a infecção. Apesar dos cuidados tomados regularmente, as unhas e as lesões da pele causavam infecção nos pés.

Quando havia infecção nas unhas ou encravavam, eram removidas totalmente.

A tensão do enfaixamento prejudicava a circulação dos pés; portanto, qualquer lesão nos dedos era difícil de curar e poderia levar à infecção. Se essa infecção atingisse os ossos, os dedos corriam o risco de serem amputados pela necrose. Por outro lado, essas complicações eram vistas de forma positiva, assim os pés poderiam ser apertados ainda com mais força.

As meninas cujos dedos eram mais grossos e rígidos, ás vezes, usavam-se cacos de vidro ou pedaços de telha quebrada inseridos entre os dedos, dentro do enfaixamento, para causar lesões e promover a infecção.

Quando a infecção era grave e acometia a totalidade do pé, a menina corria o risco de perder o membro ou até morrer de septicemia.

Durante o crescimento da jovem chinesa, muitos dos ossos do pé permaneciam quebrados durante anos e, mesmo após a finalização do enfaixamento e cicatrização, eles eram propensos a novas fraturas por pressão e pelo estresse mecânico.

As mulheres chinesas, com os pés deformados, não eram capazes de andar corretamente e precisavam ter funcionários para realizar a limpeza, cozinhar e cuidar dos filhos e do marido. Além disso, as mulheres idosas tinham maior probabilidade de cair e fraturar o quadril ou outros ossos do corpo.

 

    

        

 

Século XX:

A prática do enfaixamento dos pés continuou até o século 20, quando imigrantes e chineses alfabetizados no ocidente retornaram e iniciaram a reforma cultural. Um verdadeiro movimento “anti-enfaixamento” surgiu. Os chineses começaram a perceber que este aspecto da sua cultura não refletia bem sobre olhos da comunidade mundial e as feministas atacaram a prática e o sofrimento causado às mulheres.

Na virada do século 20, a feminista Kwan Siew-Wah (conhecida no ocidente como Brigitte Kwan), defendeu o fim da prática do enfaixamento obrigatório. Kwan recusou-se realizar o enfaixamento imposto na infância, para que pudesse crescer com os pés normais.

Houve, mas sem sucesso, várias tentativas de parar a prática do enfaixamento obrigatório dos pés. Vários imperadores emitiram editais mal sucedidos contra essa prática. Em 1911, após a queda da dinastia Qing, o governo da nova República Popular da China proibiu o enfaixamento dos pés. As mulheres foram orientadas a desembrulhar os pés para não serem mortas. Alguns pés cresceram de 1 a 3 centímetros após a retirada das faixas. Essa atitude abalou emocionalmente e culturalmente o povo chinês.

A sociedade chinesa foi estimulada a apoiar a abolição dessa prática com acordos contratuais entre famílias, que prometiam o casamento de seus filhos com filhas que não tiveram os pés amarrados.

Quando os comunistas tomaram o poder na China em 1949, eles foram capazes de impor uma proibição estrita, inclusive em áreas isoladas da china. Em Taiwan, o enfaixamento foi proibido pelo governo japonês em 1915. Essa proibição permanece em vigor até hoje.

Estima-se que cerca de 2 bilhões de pessoas foram submetidas a esta prática, desde o século 10 até 1949, quando o enfaixamento dos pés foi proibido pelo regime comunista chinês.

Esta prática deixa sequelas e limitações funcionais para o resto da vida, atualmente algumas senhoras chinesas, nascidas até meados de 1940, ainda sofrem com a deformidade permanente dos seus pés.

Mesmo com essas deformidades graves muitas mulheres eram capazes de andar, trabalhar nos campos e subir para as casas no alto das montanhas. No início do século 20, dançarinas com os pés enfaixados eram muito populares. No final de 2005, mulheres com pés enfaixados da província de Yunnan formaram um grupo de dança conhecido internacionalmente para se apresentar para os turistas estrangeiros. Em outras regiões da china, senhoras de 70 e 80 anos ainda podem ser encontradas trabalhando nas plantações de arroz.

 

   

Consultório Porto Alegre


(51) 3737.2003

Celular & WhatsApp : (51) 99574.5500

Internet : Agendamento Online 

R. Ramiro Barcelos, 630 / Sala 506

Cep: 90035-001 

Floresta - Porto Alegre - RS

Obs.: Estacionamento no local